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ANTONIO DE ALCÂNTARA MACHADO
O CRONISTA DOS "INTALIANINHOS"



O início do século XX foi de grande importância para o Brasil, momento de profundas transformações políticas, sociais e culturais. Descobría-se a capacidade inovadora da cultura brasileira. A sociedade sentia-se apta a entrar no novo mundo, São Paulo o principal pólo político e econômico do país investia nessas transformações. A cidade paulista adquiria um novo perfil, inaugura-se a Avenida Paulista, palco da burguesia paulista, comemorava-se a modernidade recém-chegada no Brasil. Aumenta-se o número de periódicos na cidade, todos falavam da nova cidade.

"A nova capital é um centro onde as manifestações da vida mundana se fazem sentir mais fortemente. Já não somos os antigos moradores da cidade provinciana que às nove da noite dormia o sono solto depois dos mexericos através de rótulos à porta das farmácias."(1)

Esta passagem da seção "Vida Mundana" do jornal O pirralho ilustra o deslumbre e o orgulho que o cronista sentia em relação à cidade de São Paulo que após as transformações vividas durante o governo Washington Luís alcançaria "Olimpo do Progresso". A burguesia extasiada diante da modernização desejava construir uma metrópole moderna e luxuosa, assim como repensar sua identidade cultural. No mesmo espaço urbano caipiras, negros, imigrantes com suas culturas contribuíam econômica e culturalmente no processo de metropolização da cidade paulista.

Durante esse processo, a burguesia exibia-se em seus carros na recém--inaugurada avenida Paulista, ao mesmo tempo que afastava os menos favorecidos do centro, ocultando o inferno daqueles que viviam em bairros pobres e insalubres.

A metropolização cobrava um perfil cultural "novo" e específico. Os artistas então, se encarregam de (re)modelá-lo. Assim, a cidade que em 1909 era ainda "pequena e terrosa" (2) deixava de ser cenário para ser protagonista, uma vez que, como propõe Nicolau Sevcenko, a cidade se torna "um tema dominante, explícita ou tacitamente, para as várias artes, fornecendo-lhes muito mais chaves para a reformulação da estrutura compositiva interna das obras, do que propriamente incidentes ou argumentos, que se dissolvem em impressões erráticas."(3)

Mário de Andrade, Oswald de Andrade e António de Alcântara Machado percebem a confluência de povos que começava a dar um novo perfil cultural para a cidade. As diversas tendências culturais misturavam-se numa espécie de polifonia étnica refletindo o híbrido e o instável que caracterizava a nova São Paulo. Embora seus textos caminhassem paralelamente, exceção feita a Mário e Oswald, os três autores convergem na visão que tinham do progresso e da cidade moderna.

Mário e Oswald de Andrade olhando o progresso com ceticismo percebiam a decadência e a reificação dos sentimentos humanos ao mesmo tempo que viam nela a força emancipadora de uma cultura. No entanto, António de Alcântara Machado em Brás, Bexiga e Barra Funda, publicado em 1927, extasiado e deslumbrado diante do progresso industrial, notava que a base do desenvolvimento econômico era a colônia italiana que se proletarizava. Com isso, sua cultura poderia também contribuir para a construção da identidade cultural, buscada tal qual o paraíso que os descobridores vieram procurar na América.

No Brasil das "três raças tristes", o italiano (a nova raça) "Adaptou-se. Trabalhou. Integrou-se. Prosperou." (4) Alcântara Machado no prefácio do referido livro reconhece a importância da força produtiva dos novos habitantes que prosperaram na terra que fora desbravada pelos "heróicos" bandeirantes, adaptando-se e integrando-se à medida que aqui nasciam seus filhos: os "intalianinhos".

O autor, reconhecendo a importância dos italianos na construção econômica do país, pois trabalharam, homenageia seus descendentes por serem o resultado positivo da deglutição sofrida pelos seus pais. As narrativas de A. Alcântara Machado refletem o olhar que o autor mantinha em relação aos imigrantes, estes sofriam a colonização às avessas, uma vez que não eram seus hábitos que aqui prevaleciam e sim lhes era uma imposta a ideologia do país da "hospitalidade" nacional. Os imigrantes aceitavam a nova cultura para não serem marginalizados pela classe dominante.

A legitimação do elemento italiano no campo cultural brasileiro se concretizava no momento em que um membro da burguesia paulista, o intelectual Alcântara Machado, prestava homenagens aos "intalianinhos" no prefácio do referido livro.

Todos eles figuram entre os que impulsionam e nobilitam neste momento a vida espiritual e material de São Paulo. (5)

Antropofagicamente a cultura italiana seria devorada para não devorar, acontecendo um processo inverso ao da colonização, o Brasil finalmente devorava o Europeu, assemelhando e adaptando seus hábitos à nova pátria.

Desde o periódico O pirralho (1911-1917)(6), fundado por Oswald de Andrade, a colônia italiana já tinha sua presença reconhecida na formação cultural do país. Ao reconhecer a forma de expressão no dialeto ítalo-brasileiro, reconhecia-se uma identidade cultural lingüística para a cidade. Em O pirralho apresentava-se pela via alegórica o cotidiano do imigrante e assim permitia-se que a questão da alteridade pudesse ao menos ser pensada pelos intelectuais do período. O Outro proletário tinha então sua voz e sua cultura reproduzidas.

Embora motivado pela ideologia do progresso industrial, Alcântara Machado contribui com sua literatura à medida que divulgava a cultura da colônia ítalo--brasileira, rompendo os limites entre literatura culta e popular. As crônicas de Alcântara Machado em Brás, Bexiga e Barra Funda, apresentam a inoportuna face de um mundo enlutado e repleto de violência que dilacerava o contexto social imaginado pelos imigrantes. Na escrita, pelo traço alegórico da linguagem há a possibilidade de serem expostas as frustrações dos sonhos políticos, sociais e pessoais dos imigrantes e que através dos os "intalianinhos" acabavam sendo legitimados pela cultura brasileira como "premiação" por sua contribuição econômica.

O processo de assimilação cultural vai sendo realizado gradativamente no imigrante. Na crônica "Nacionalidade", por exemplo, a personagem Tranquillo Zampinetti radicado em São Paulo, constrói sua pequena fortuna e sua família, "mas ia dormir com aquela idéia na cabeça: voltar para a pátria.(7) Com o passar do tempo, o "intalianinho" filho de Tranquillo, o Bruno, se forma em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo, o que já é significativo no processo de legitimação da família de italianos na sociedade brasileira, na medida que a faculdade do Largo do São Francisco era o reduto dos herdeiros da elite paulista.

Os "intalianinhos" recusam-se ao aprendizado da língua italiana como vemos em Bruno e Lorenzo, filhos do velho Zampinetti que "não queriam saber de falar italiano. Nem brincando."(8) A negação de aprender a língua dos pais era sobretudo a negação de manter a cultura paterna contribuindo para a desarticulação do discurso do "colonizador europeu", uma vez que a língua constitui-se num artefato simbólico para a formação de uma cultura.

Ideologicamente, se desejava construir uma nação baseada no hibridismo cultural, negava-se falar em italiano, mas não o macarrônico, por ser esta forma deglutida da expressão lingüística da colônia e ainda, finalmente, a identidade lingüística da cidade.

Tranquillo Zampinetti, já proprietário de seis prédios, sócio da Perfumaria Santos Dumont, cabo influente do Partido Republicano Paulista, tem sua naturalização requerida pelo advogado Bruno Zampinetti, seu filho. No caso, o "intalianinho" Bruno foi o elo entre o italiano Tranquillo e a nova pátria que o premiou com a naturalização pela contribuição econômica que trouxera ao país.

Com isso, o italiano é aceito na sociedade brasileira pois "os" valores dos donos da terra passaram a ser "seus" valores, o processo de assimilação e legitimação cultural foi integral, primeiramente na negação de seus filhos em aprender a sua língua, depois no ingresso de seu filho Bruno na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na sua adesão ao PRP e, finalmente, na naturalização.

Na crônica "Notas biográficas do Novo Deputado" a assimilação cultural pelo elemento italiano acontece no menino Gennarinho. Filho de um colono da fazenda do Coronel Juca, Gennarinho chega em São Paulo "com o nariz escorrendo. Todo chibante."(9) E aí, inicia-se um processo de "adaptação" do pequeno menino, o primeiro passo é a mudança do nome para Januário. Negar o nome de origem italiana era renunciar à identidade do nascimento - o novo nome seria o passaporte para a integração no mundo que recebia cordialmente seus imigrantes.

Nas crônicas "Armazém Progresso de São Paulo" e "A sociedade" temos a inserção do italiano na sociedade brasileira, ora através do casamento, como em "A sociedade" ora pela via econômica, como em "Armazém..." e ainda em "A sociedade".

A narrativa das crônicas Brás, Bexiga e Barra Funda tem o mérito de integrar um grupo importante para a formação cultural do brasileiro. Ao re-criar macarronicamente a linguagem do imigrante italiano, Alcântara Machado permite a leitura e a identificação de uma forma de expressão da tradição popular marginalizada, rompendo a aura em torno da representação simbólica da assimilação cultural brasileira pelo imigrante que, aparentemente era realizada passivamente.

O uso da linguagem macarrônica, forma de expressão da colônia italiana, preservaria a anarquia e a rebeldia do imigrante que não se acanhava em adotar posturas políticas e lingüísticas próprias, como visto na crônica "Nacionalidade" onde Tranquillo não se acanhava de defender a Itália , nem tampouco transformar sua expressão lingüística.

A participação da força produtiva do elemento italiano no Brasil, possibilitou sua integração social e cultural na medida que os "intalianinhos" tinham acesso à circulação dos bens culturais. Deglutindo antropofagicamente a cultura italiana, Alcântara Machado na narrativa de Brás, Bexiga e Barra Funda, através da linguagem e do humor macarrônico mostra a existência e atuação de uma cultura popular hibridamente integrada para transformar a cultura brasileira.


  1. O pirralho, 12 de agosto de 1911, número 4. Voltar
  2. ANDRADE, Oswald. Um homem sem profissão-sob as ordens de mamãe. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976, pp. 10. Voltar
  3. SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole. São Paulo, Companhia das Letras, 1992, pp.18. Voltar
  4. MACHADO, António de Alcântara. Novelas Paulistanas. 7.ed. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981, pp.8. Voltar
  5. ibid., pp.9. Voltar
  6. No periódico citado dedica-se uma coluna à colônia italiana, primeiramente Oswald de Andrade assinava a coluna com o pseudônimo de Anibale Scipione, após 1912 Juo Bananére assume e transforma a coluna num periódico como o título de O Rigolejo. Voltar
  7. id., 1981, pp.47 Voltar
  8. ibid., pp.46. Voltar
  9. ibid., pp.36. Voltar


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