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M emória & H istória

Peter Burke (PART II)


USOS DA MEMÓRIA SOCIAL

Qual a função da Memória social? É difícil encontrar um ponto de apoio numa questão tão vasta. Se um advogado contribuísse para esta série de conferências, poderia discutir a importância do costume ou do precedente, a justificação ou legitimação de ações do presente tomando o passado como referência, as funções das recordações das testemunhas perante os tribunais, o conceito de “tempo imemorial”, por outras palavras, do tempo “durante o qual a memória humana […] não se lembra do contrário”, e as mudanças de atitudes quanto à prova de recordação conseqüente à difusão da leitura e dos registros escritos .

Como historiador cultural, considero útil abordar a questão dos usos da Memória social perguntando porque será que algumas culturas parecem mais preocupadas em recordar o seu passado do que outras. É lugar comum contrastar a preocupação chinesa tradicional com o seu passado com a tradicional indiferença dos índios em relação ao seu. No seio da Europa encontramos também contrastes deste tipo. Apesar da sua atitude reverente para com a tradição e da preocupação com a “herança nacional”, discutida por Patrick Wright, a memória social dos ingleses é relativamente curta. Os irlandeses e os polacos, por outro lado, têm memórias sociais relativamente longas. Numa visita a Belfast, em 1969, recordo-me de ver um retrato de Guilherme III a cavalo, desenhado a giz num muro, com a inscrição “recordem 1690”. No Sul da Irlanda, a população ainda se lembra do que os ingleses lhe fizeram na época de Cromwell como se tudo tivesse acontecido no dia anterior. Na Polônia, o filme de Andrej Wajda Ashes, passado na época de Napoleão, provocou uma controvérsia nacional acerca do ( 245 ) que Wajda parecia encarar como o heroísmo fútil da Legião Polaca. Aqui, por outro lado, e quase ao mesmo tempo, o filme A carga da Brigada Ligeira foi tratado como pouco mais do que um pretexto para a demonstração dos trajes do século XIX. Os ingleses parecem preferir esquecer . Sofrem ou regozijam-se com o que o antropólogo social John Barnes designou por “amnésia estrutural” . Uma vez que a amnésia estrutural é o oposto complementar do conceito de “memória social”, rebatizá-lo-ei para “amnésia social”.

Porque existe um contraste tão acentuado entre as atitudes para com o passado em diferentes culturas? Diz-se muitas vezes que a história é escrita pelos vencedores. Poderia também dizer-se que a história é esquecida pelos vencedores. Podem permitir-se esquecer, enquanto os derrotados são incapazes de aceitar os acontecimentos e estão condenados a meditar sobre eles, a revivê-los e a imaginar quão diferentes poderiam ter sido. Seria possível encontrar uma outra explicação em termos de raízes culturais. Quando as temos, podemos permitir-nos esquecê-las, mas quando as perdemos, vamos em busca delas. Os irlandeses e os polacos foram desenraizados e os seus países divididos; não é surpreendente, por isso, que pareçam estar obcecados com o passado. Voltamos assim ao tema favorito de Halbwachs, a relação entre o lugar e a Memória.

Os irlandeses e os polacos fornecem exemplos particularmente claros da utilização do passado, da utilização da Memória social e da utilização do mito na definição da identidade. A razão para recordar 1690 (de forma especial), ou para recria o 12 de julho, ou para rebentar a coluna de Nelson - como o IRA fez em 1966 - ou para reconstruir o antigo centro de Varsóvia, depois de os alemães o terem destruído - tal como fizeram os polacos depois de 1945 - o objetivo de tudo isto é dizer claramente quem “nós” somos e distinguir-“nos” dos “outros”. Tais exemplos poderiam multiplicar-se. No caso da Europa, são relativamente fáceis de encontrar ao longo do século XIX. ( 246 )

O final do século XIX foi descrito de forma provocatória como a era da “invenção da tradição” . Foi sem dúvida uma época de recolha das tradições nacionais, nas quais foram construídos monumentos nacionais, e estabelecidos rituais nacionais (como o dia da Bastilha), ao mesmo tempo que a história nacional passou a ocupar um lugar nas escolas européias que nunca tinham ocupado antes e não voltaria a ocupar depois. O objetivo de tudo isso era essencialmente o de justificar ou de “legitimar” a existência da Nação-Estado; quer no caso de novas nações como a Itália ou a Alemanha quer de nações mais velhas como a França, onde a lealdade nacional tinha ainda que ser criada, e os camponeses transformados em franceses .

A sociologia de Émile Durkheim, com a sua ênfase na comunidade, no consenso e na coesão, carrega também ela as marcas deste período. Seria insensato colarmo-nos demasiado às idéias de Durkheim e do seu discípulo Halbwachs a este respeito, e tratar a função social da Memória social como se o conflito e a divergência não existissem. Referi-me várias vezes à Irlanda do Norte, e trata-se de um exemplo clássico, apesar de estar longe de ser o único, quer de recordações de conflitos quer de conflitos de Memória . Dada a multiplicidade de identidades sociais e a coexistência de memórias sociais, de memórias alternativas (memórias de família, memórias locais, memórias de classe, memórias nacionais, etc.), é certamente mais produtivo pensar em termos pluralísticos sobre os usos que a recordação pode ter para diferentes grupos sociais que podem ter diferentes pontos de vista quanto ao que é significativo ou “digno de memória” .

O crítico literário americano Stanley Fish cunhou a frase “comunidades interpretativas” para analisar conflitos quanto à interpretação de textos. De forma semelhante, poderia ser útil pensar em termos de diferentes “comunidades de memória” no interior de uma dada sociedade( 247 ) . É importante perguntar: quem quer que se lembre o quê e porquê? Que versão do passado se registra e se preserva?

As disputas entre historiadores que apresentam relatos rivais do passado refletem por vezes conflitos sociais mais vastos e mais profundos. Um exemplo evidente é o corrente debate acerca da importância da história “feita a partir de baixo”, um debate que remonta pelo menos a Alexander Pushkin, historiador e poeta, que disse ao Czar que desejava escrever acerca do líder camponês Pugachev. A resposta do Czar foi brutalmente simples: “Um homem desses não tem história”. As recordações oficiais e não oficiais do passado podem diferir grandemente e as recordações não oficiais, que tem sido relativamente pouco estudadas, constituem por vezes forças históricas de pleno direito; a Boa Velha Lei na Guerra Camponesa Alemã de 1525, o Norman Yoke na Revolução Inglesa, etc. Sem invocar as recordações sociais deste tipo seria difícil explicar a geografia da divergência e do protesto, o fato de que algumas idéias, por exemplo, participem em diferentes movimentos de protesto século após século e outras não.

A destruição sistemática de documentos que é uma característica tão comum das revoltas - pensemos nos camponeses ingleses em 1381, nos camponeses alemães em 1525, nos camponeses franceses em 1789, etc. - pode ser interpretada como a expressão da convicção de que os registros falsificaram a situação, se encontravam distorcidos a favor da classe dirigente, enquanto as pessoas vulgares se lembravam dos fatos como eles tinham realmente acontecido. Estes atos de destruição são tratados no meu último tópico, os usos do esquecimento ou da amnésia social.


OS USOS DA AMNÉSIA SOCIAL

É freqüentemente esclarecedor abordar os problemas por detrás, virá-los do avesso. Para investigar a organização social do esquecimento, as regras de exclusão, supressão ou repressão, e a interrogação: quem quer que esqueça o quê, e porquê. Amnésia remete para “amnistia”, para aquilo a que se costumava chamar de “atos de esquecimento”, o apagamento oficial de recordações de conflito no interesse da coesão social. ( 248 )

A censura oficial do passado é sobejamente conhecida, e pouco há a dizer acerca das várias revisões da Enciclopédia Soviética. Muitos regimes revolucionários e contra-revolucionários gostam de simbolizar o seu corte com o passado alterando os nomes das ruas, especialmente quando estes nomes se referem a datas de acontecimentos significativos. Quando visitei a Bulgária em meados dos anos 60, o único guia que possuía era um Guide Bleu de 1938. Apesar de incluir as plantas das ruas, perdi-me mais de uma vez e tive de perguntar aos passantes onde ficava a rua 12 de Novembro, por exemplo. Ninguém pareceu surpreendido, ninguém sorriu, as pessoas limitaram-se a conduzir-me, mas quando chegava verificava que a rua 12 de Novembro tinha passado a ser a rua 1º de Maio, etc. Este incidente pode ser encarado como um estimulante indicador da força da memória não oficial e da dificuldade de a apagar, mesmo nos chamados regimes totalitários dos nossos dias.

Na realidade, o que poderíamos designar por “síndrome da Enciclopédia Soviética” não é uma invenção de tais regimes. Na Europa do início do período moderno os acontecimentos podiam também tornar-se não acontecimentos, pelo menos oficialmente. O rei Luís XIV e os seus conselheiros preocuparam-se muito com aquilo a que chamaríamos hoje de “imagem pública”. Foram emitidas medalhas para comemorar os acontecimentos principais do reinado, incluindo a destruição da cidade de Heidelberg, em 1693. No entanto, quando as medalhas foram colecionadas e reunidas para formar uma história metálica do reinado, essa medalha particular desapareceu do catálogo. Parece que Luís tinha passado a achar que a destruição de Heidelberg nada tinha acrescentado à sua reputação, à sua glória, e assim o acontecimento foi oficialmente suprimido, apagado do livro da Memória .

A censura oficial de recordações incômodas é bem conhecida. O que necessita ser investigado é a sua supressão ou repressão não oficiais, e este tópico vem levantar, uma vez mais, a incômoda questão da analogia entre a Memória individual e a Memória coletiva. A famosa metáfora freudiana do “censor” existente dentro de cada indivíduo derivava evidentemente da censura oficial do Império Habsburgo. De forma semelhante, um psicólogo social, Peter Berger, sugeriu que todos nós ( 249 ) rescrevemos a todo o momento as nossas biografias à maneira da Enciclopédia Soviética . Mas entre estes dois censores, o público e o privado, há ainda espaço para um terceiro, coletivo, mas não oficial. Podem os grupos, tal como os indivíduos, suprimir aquilo que é inconveniente recordar? E, em caso afirmativo, como o fazem ?

Consideremos a seguinte história, recolhida pelo antropólogo Jack Goody. Diz-se que a origem das divisões territoriais do Gonja, no Norte de Gana, resultou de um ato do fundador, Jakpa, que dividiu o reino entre os seus filhos. “Quando os pormenores desta história foram pela primeira vez registrados, no início do presente século, na época em que os ingleses estendiam o seu domínio àquela área, dizia-se que Jakpa tinha tido sete filhos, correspondendo ao número de divisões […] Mas na altura em que os ingleses chegaram, duas das sete divisões desapareceram […] sessenta anos mais tarde, quando os mitos do Estado foram de novo recolhidos, apenas cinco filhos eram atribuídos a Jakpa . Este é um caso clássico de utilização do passado para legitimar o presente, que Malinowski descreveu como o funcionamento do mito de uma “carta de foral” das instituições (adotando o termo “carta de foral” utilizado pelos historiadores da Idade Média).

Não gostaria de afirmar que este ajustamento do passado ao presente se verifica apenas em sociedades sem escrita. Evidentemente, é muitas vezes fácil demonstrar discrepâncias fundamentais entre a imagem do passado partilhada por membros de um determinado grupo social e os registros sobreviventes do passado. Um mito recorrente (que pode encontrar-se sob múltiplas formas na nossa sociedade de hoje) é o dos “pais fundadores”; a história de Martinho Lutero fundando a Igreja Protestante, de Émile Durkheim (ou Max Weber) fundando a sociologia, e assim por diante. De uma maneira geral, o que acontece no caso destes mitos é que as diferenças entre o passado e o presente são elididas, e há conseqüências imprevistas que se transformam em objetivos conscientes, como se a finalidade principal destes heróis do passado fosse veicular o presente - o nosso presente. ( 250 )

A escrita e a imprensa não são suficientemente poderosas para impedir o alastrar de mitos deste tipo. O que podem, no entanto, fazer é preservar os relatos do passado que são inconsistentes com os mitos, que os minam - relatos de um passado que se tornou inconveniente e embaraçoso, um passado que as pessoas, por uma razão ou outra, não desejam conhecer, embora possa ser melhor para elas se conhecessem. Poderia, por exemplo, libertá-las da perigosa ilusão de que o passado, o presente e o futuro podem ser encarados como uma simples luta entre heróis e malandros, o bem e o mal, o certo e o errado.

Os mitos não devem ser desprezados, mas sua leitura literal também não é recomendável.

Heródoto imaginou os historiadores como guardiães da memória, a memória de feitos gloriosos. Eu prefiro ver os historiadores como os guardiães de fatos incômodos, os esqueletos no armário da memória social . Existiu em tempos um oficial chamado Recordador (Remembrancer). O título era na realidade um eufemismo para coletor de impostos; o trabalho do oficial consistia em recordar às pessoas aquilo que elas gostariam de esquecer. Essa é uma das funções mais importantes do historiador.

BURKE, Peter. A História como Memória Social In:

O MUNDO COMO TEATRO - ESTUDOS DE ANTROPOLOGIA HISTÓRICA.

Lisboa. Difel. 1992.

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