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OSuspiroDeSalmanRushdie


“What one writer can make in the solitude of one room is something no power can easily destroy.
Salman Rushdie

Uma realidade e uma formação genética multicultural, um mundo (des)coberto pelas metáforas religiosas, uma inconstante luta pela liberdade de expressão, um imenso desejo de sobreviver, este é Moraes Zogoiby, O Mouro, personagem central de O último suspiro do Mouro, de Salman Rushdie, autor muçulmano de origem paquistanesa, nascido na Índia, naturalizado e educado na Inglaterra, que em 1989 publicou os Versos Satânicos. Segundo os Aytollalas do Irã, este romance difamava o Islã assim como ao seu profeta Maomé. Como “castigo” foi instituída ao autor, pelo Ayatollah Khomeini, a sentença de morte decretada a todos os muçulmanos que blasfemam contra sua religião, a “fatwa”. Desde então, Rushdie vive enclausurado em lugar desconhecido.

Sendo um intelectual sensível e engajado, que percebe claramente até onde a intolerância pode levar alguém, Rushdie não poderia aceitar esta sentença passivamente, e assim como resposta aos seus algozes publica O último suspiro do Mouro, uma narrativa constituída de elementos alegóricos que defende a liberdade de expressão, e a luta contra o totalitarismo, bem como as conseqüências de um imperialismo que quis impor à força seus valores culturais ao colonizado. Estes como resposta ao colonizador resistiram encontrando no xenofobismo cultural e religioso abrigo perfeito, mas este acabou por desembocar, como podemos ver hoje na barbárie, que ppor sua vez utiliza os mesmos processos de autoritarismo do colonizador. Sendo o colonialismo substituído pelo imperialismo 1 no século XX, e este mesmo sofrendo o desmantelamento das grandes estrutura coloniais após a Segunda Guerra Mundial2,deixou sua marca de dominação cultural até hoje, sobretudo nos países de Terceiro Mundo.

A globalização então, fenômeno criado pelos países desenvolvidos para expandirem mais ainda seus domínios econômicos e culturais, procura silenciar a reação cultural de determinados países que durante muito tempo viveram sob domínio imperialista. Assim, num momento em que o mundo caminha para a tal aclamada globalização, Rushdie coloca o dedo na ferida ao denunciar através de seu romance, a inexistência no mundo de recantos tranqüilos, a intolerância cultural e a barbárie que acreditávamos ter sido aniquilada, construindo assim diversas ilhas culturais. Vários intelectuais apontam para esta fratura da globalização, tal qual Rushdie, Octávio Paz em Vislumbres da Índia reflete também sobre os conflitos culturais, políticos e sociais que estão ocorrendo hoje no mundo,

Assistimos hoje, no final do século, à ressurreição de paixões, crenças, idéias e realidades étnicas e psíquicas que pareciam enterradas. O retorno da paixão religiosa e do fervor nacionalista esconde um significado ambíguo: é a volta dos demônios e fantasmas que a razão havia exorcizado ou à revelação de verdades e realidades profundas, ignoradas por nossas orgulhosas construções intelectuais? Não é fácil responder essa pergunta. O que se pode dizer na verdade, é que a ressurreição dos nacionalismos e os ‘fundamentalismos’(por que não os chamar por seu verdadeiro nome: “fanatismo”) Converteu-se numa ameaça à paz internacional e à integridade das nações.”3

E Rushdie, vítima do fanatismo religioso, por sua vez então, elege a Índia pelo seu caráter multicultural para expor a existência destas ilhas culturais.

O narrador e personagem de O último suspiro do Mouro, Moraes Zogoiby,escreve a história de sua família, para poder sobreviver à sentença de morte, determinada por Vasco de Miranda, seu algoz. Angustiado desabafa :

“Perdi a conta dos dias que transcorreram desde que fugi dos horrores da fortaleza louca de Vasco Miranda, na aldeia de Benengeli, nas montanhas da Andaluzia; fugi da morte na escuridão da noite, deixando uma mensagem pregada na porta.” 4

A narrativa é iniciada com este suspiro de desabafo, estabelece-se uma linearidade temporal, com raríssimas digressões, e assim o leitor compreende melhor sua história. A História da Índia colonizada e pós-colonizada entremeia-se à história da família Zogoiby. Reproduz-se no âmbito privado dos da Gama Zogoiby a mesma relação de poder na esfera pública indiana, desde a divisão de castas às lutas e disputas políticas. O narrador assim, vive no limite da esfera pública e privada.

Moraes por parte de mãe descende dos primeiros portugueses que enriqueceram na Índia. A família de Aurora da Gama Zogoiby dizia ser descendente direta de Vasco da Gama, português que descobriu um novo caminho para as Índias. Artista plástica famosa e influente por manter relações com toda a elite política da Índia, antes e pós- independência, era uma mulher vaidosa e autoritária. Casa-se com seu primeiro amor, por quem se apaixonara à primeira vista, Abraham Zogoiby, com quem teve quatro filhos, (três filhas e enfim o caçula era o tão esperado filho homem, O Mouro) e com quem galga ao sucesso e a fama. De sua mansão na ilha de Elefanta controlava tudo e a todos. Mãe autoritária com seus filhos elimina a personalidade de cada um. Com o nascimento de seu filho caçula inicia a série de pintura intitulada “O Mouro”. Pedindo para que seu filho sempre posasse, Aurora deseja manter o constante controle de sua criação. Perdendo o controle de todos que a amavam, inclusive de seu marido, Aurora morre tragicamente, ao despencar do penhasco da Elefanta num ritual que realizava todos os anos, a dança que afrontava os deuses, que metaforicamente pode ser lida como a queda de Lúcifer do Paraíso para o Inferno.

“Naquela noite, ao assistir ao noticiário da televisão, fiquei sabendo que minha mãe havia morrido, tendo despencado do alto do rochedo enquanto realizava sua dança anual de afronta aos deuses”. 5

Seu pai, Abraham, judeu, descendente do último sultão muçulmano em Granada, era gerente dos negócios da família de Aurora. Abraham se torna um dos homens mais poderosos e corruptos da Índia, traficando mulheres e drogas. Abraham é a representação do imperialismo que vigorou( a) na Índia, a estrutura arcaica, sedutora e corrupta, mas aparentemente dócil e cordial.

O Mouro então é o resultado do transculturalismo religioso e étnico na Índia. Seu nascimento é de constituição fantástica, nasce após 4 semanas e meia de gestação e com isso sua vida passa a correr em dobro. Quando menino seu corpo era de um homem adulto, aos 36 tem aparência de um homem de 72 anos de idade:“

Um homem que vive duas vezes mais rápido que os outros.” 6.

Com sua mão defeituosa, em forma de luva de boxe, e vivendo sua vida em dobro, pois sua mãe Aurora desejara “(...) pelo menos um filho que crescesse muito depressa”7 , o Mouro custa a encontrar sua identidade tão multifacetada pelas culturas que o formam. Seu aspecto físico conecta-se com a Índia, grande, multicultural e disforme e em busca de uma identidade.

Criado num palacete conhecido por A Elefanta, na ilha do mesmo nome,o Mouro vive afastado da realidade até descobrir o amor, mas ao encontrá-lo conhece uma outra realidade, como Adão que descobre o prazer, é expulso do paraíso, desilude se, e para se auto-afirmar e vingar-se de sua família que o expulsara por causa desse amor proibido, o Mouro abre seus próprios caminhos, buscando na marginalidade uma forma de encontrar-se. Nesta caminhada descobre o mundo dos oprimidos, das minorias e dos dominadores. E no submundo se vê um excluído:

“Os boas-vidas como você” , disse ele, cuspindo um jato vermelho-vivo junto a meus pés descalços, “vivem na cidade e não conhecem o segredo dela. Para vocês ele é invisível, mas agora você o descobriu. Isto aqui é a cadeia do Centro de Bombaim. É o estômago, o intestino da cidade. Então é natural que esteja cheia de merda.” 8

Descoloniza-se e descobre então que o Homem não estava em primeiro plano, nota que a intolerância e a ganância acabam com os sentimentos solidários da humanidade. Descobre as maléficas conseqüências culturais da colonização, nas ruas de Bombaim vê os oprimidos circularem sem terem consciência da liberdade e descobre que para estes a independência nunca existira e o futuro simplesmente é uma incógnita. E ele O Mouro, que sempre fora poupado da violência social, para sobreviver, para ser aceito no novo mundo que descobria, deixa que seu muro interno desmorone e assim a violência nele entraria sem pedir licença.

“Admito: sou um homem que bateu em muita gente. Levei a violência a muitos lares, tal como um carteiro leva correspondência. Fiz serviços sujos que me foram encomendados-e os fiz com prazer.” 9

Marginal foge da Índia pela incapacidade ter uma identidade, após ser perseguido, procura um velho amigo de sua mãe Aurora, Vasco de Miranda que já louco quer dele se vingar por causa de um caso frustrado com Aurora. O Mouro então é aprisionado e obrigado a escrever a história de sua família, reproduzindo a lenda de Sherazade, o Mouro via que a cada dia que escrevia e rescrevia sua história era um dia de vida que ganhava e assim a possibilidade da existência de uma esperança:

‘Já que os Zogoiby vão ser varridos da face da terra-se os pecados do pai, e da mãe, também, também vão ser expiados pelo filho-,então que o último dos Zogoiby conte a saga perversa da família.’A partir daí, todos os dias Vasco me trazia papel e lápis. Transformou-me numa Xerazade-el Zogoiby, o Xerazado. Enquanto minha história interesse, ele me deixaria viver.” 10

Durante a leitura do romance nos perguntamos qual personagem estaria dialogando pelo autor, seria Moraes que luta incessantemente pela vida, recorrendo a artifícios lendariamente conhecidos, seria Aurora a grande artista que nunca se negara a deixar de criar, e muitas vezes, em nome da liberdade de expressão desrespeitava dogmas religiosos e sociais? Talvez os dois, Rushdie revela a sua essência em cada um deles, pois ambos revelam o caráter de um intelectual que vê na expressão artística uma forma de representar as angústias e determinações humanas. Esta representação é colocada no romance quando o narrador constatando seu desencanto diz que“um suspiro não é apenas um suspiro. Inalamos o mundo e exalamos significados.”

Finalmente consegue escapar da fortaleza de Vasco de Miranda e após uma longa caminhada, reconciliando-se com o mundo, acredita poder encontrar uma identidade, e um espaço onde pudesse ter a “esperança de despertar renovado e feliz, num tempo melhor.”11

NOTAS:


1.“o imperialismo significa pensar, colonizar, controlar terras que não são nossas, que estão distantes, que são possuídas e habitadas por outros.”(

Said, Edward. Cultura e Imperialismo. Trad.Denise Bottman. São Paulo, Cia das Letras, 1995, p. 37)

2.Said. Idem, p. 38.
3.PAZ. Octávio.
Vislumbres da Índia
. Trad. Olga Savary. São Paulo,Mandarim, 1995, p. 128.
5.RUSHDIE. Salman.
O último suspiro do mouro
. Trad. Paulo Henriques Brito. São Paulo, Cia das Letras, 1996, p.11).
6.Op. Cit.p. 33.
7. Op. Cit. p . 153.
8.Op. Cit p. 301.
9.Op. Cit. p. 320.
10.Op. Cit. p. 437.
11. Op. Cit. p. 63

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